domingo, 23 de dezembro de 2012


UM NATAL DE POESIA

Prof. Luiz Pacheco



Rodrigues Pinagé foi um poeta potiguar que migrou para Belém junto com os seus pais ainda criança. Em Belém exerceu a função de jornalista e funcionário público, foi eleito Príncipe do poetas paraenses pela Academia Paraense de Letras. Pinagé era amigo-pessoal do meu velho Pai – Antônio Pacheco de Almeida, e frequentava a barbearia dele que ficava localizada na Travessa Campos Sales, entre a Boulevard Castilhos França e a 15 de Novembro. Somente com a companhia de Pinagé era que meu pai era capaz de se dirigir ao antigo e tradicional estabelecimento comercial que era apegado a sua barbearia – o tradicional bar e café “Barbinha”, localizado na esquina da Tv. Campos Sales com a Boulevard Castilhos França.


Meu pai tomava junto com Pinagé uma garapa ou caldo de cana e, normalmente, conversavam sobre poesia, política e sobre o processo de modernização das artes, do país, dos costumes, etc. Meu pai, que nas horas vagas também se dedicava a poesia, era leitor e admirador dos poetas românticos e neoclássicos brasileiros que assumiam uma influência parnasiana na forma, mas que não abdicavam de abordar as particularidades do Brasil, abordando, além do amor à humanidade temas relacionados com o cotidiano dos brasileiros. Os autores prediletos do meu pai eram Olavo Bilac, Francisco Otaviano, Gonçalves Dias, José de Alencar, Castro Alves, Euclides da Cunha, Vespasiano Ramos, além do próprio Pinagé e do extraordinário Fernando Pessoa.


Era comum, no final do domingo, meu pai reunir os filhos para declamar poesias, especialmente em períodos de festas como o Natal. Não há como não se lembrar destes fatos em períodos como estes. Assim, todas as vezes que desejo a alguém Feliz Natal, o faço tendo na mente e no coração os bons conselhos do meu Pai e a emoção intensa, sincera e verdadeira de minha Mãe, por isso, eu digo a todos com muita força e emoção: FELIZ NATAL!          




REMINISCÊNCIAS DA ÁGUA FRESQUINHA E 
DO BANHO CHEIROSO NA TARDE CHUVOSA
 DA BELA BELÉM 

Prof. Luiz Pacheco


                Este filtro me faz lembrar minha mãe, o meu querido bairro de canudos e a pia em forma de jirau, colocada na janela pelo de fora da casa, com vista para o quintal onde se avistava duas bananeiras, uma touceira de açaí, um pé de fruta-pão e outro de taperebá... Tempo de infância, inocência e de comer fruta fresquinha tirada do pé ou comprada na feira embrulhada em jornal de ontem e trazida pra casa em sacola de pano ou nylon colorido. Tempo em que eu sentia o cheiro de alho e cebola nas mãos de minha mãe quando ela me dava a água bem fresquinha, não gelada pra não fazer mal pra garganta, tirada daquele filtro. Tempo em que eu ficava na janela da sala olhando a garotada da vizinhança brincando de bola na rua, no meio da chuva das três horas da tarde, e eu vibrando e torcendo pelo gol do outro como se a jogada, o drible e o chute tivessem sido meu. 

              Tempo de paz, resignação, respeito aos mais velhos e de tomar sopa de feijão na hora do jantar. Tempo de solidariedade, respeito, periquito no açaizeiro do vizinho e de ruas calmas e molhadas... Tempo em que minha Belém era pura poesia, papagaio xinava na esquina, o vendedor de açaí fechava a venda depois das duas e do banheiro de casa exalava um cheiro de pau-Rosa vindo do banho tomado com o sabonete da Phebo. Ai que saudade! 

             Tenho saudade do carinho de minha mãe, do olhar vigilante do meu pai e do aroma de papel úmido que exalava das páginas da bíblia que ele lia, religiosamente, todos os dias... Neste tempo as pessoas tinham vergonha de serem sarcásticas ou irônicas, bebíamos a água fria do filtro sem a culpa de estar gastando mais energia com a porta da geladeira Frigidaire aberta; sem culpa pela construção de mais uma hidrelétrica na Amazônia. Eh, saudade!



segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Esclarecendo o título deste Blog


A palavra alguidar, segundo o dicionário de língua portuguesa refere-se a uma espécie de vaso rudimentar de barro ou liga metálica, uma espécie de utensílio doméstico que tem o formato de um cone "truncado e invertido", uma espécie de recipiente rudimentar que era utilizado tanto pelos índios como pelos negros e portugueses para limpar e lavar diferentes tipos de alimentos. Trata-se de uma palavra que me faz lembrar minha mãe que dizia que quando era menina, no sítio do pai dela no município de Santa Isabel-PA, tinha de deixar o fruto do açaí de molho neste recipiente para amolecer e só depois de um tempo poderia extrair dele o saboroso sumo ou vinho que, até hoje, alimenta grande parte dos habitantes dos lugares mais remotos da nossa Amazônia gigantesca. Quando recorremos a essa imagem tínhamos por intenção falar de um receptáculo virtual de pensamentos que pudessem se traduzir em bons argumentos e textos sobre os fatos e acontecimentos relevantes que, por alguma razão, estejam em evidência.

A segunda parte do nome do blog refere-se a união indissolúvel entre o tempo e  o espaço, recorremos ao hífen para mostrar essa indissociabilidade; assim, a intenção é mostrar que essas dimensões do real não são  dimensões estanques e estão de tal forma associadas que cada fato ou acontecimento do presente, do passado e do futuro marca, ao mesmo tempo, essas duas dimensões, ou melhor, eles permeiam e se realizam através de e nestas dimensões. Os fatos/eventos marcam a história da humanidade e a geografia já vivida e a que estamos vivenciando neste instante aqui e agora ou em qualquer outro lugar do mundo.

Assim, como a ideia deste Blog é falar sobre os acontecimento que estão mobilizando as pessoas em diferentes lugares do mundo, optou-se então por enfatizar a associação permanente existente entre o Tempo e o Espaço. Sobre este tema Milton Santos (1999) nos lembra que "O lugar é o depositário final, obrigatório, do evento" e dialogando com Eddington (1968), ele esclarece que "um evento é um instante no tempo e um ponto do espaço ... Os eventos são, todos, Presente. Eles acontecem em um dado instante, uma fração de tempo que eles qualificam. Os eventos são, simultaneamente, a matriz do tempo e do espaço".  Portanto, os eventos do nosso presente interessa a todos que querem ou necessitam se posicionar perante este mundo. Para finalizar concordamos mais uma vez com M. Santos quando ele nos diz que: "Um evento é a causa do outro, mas o faz pela via do universo, com a intermediação da totalidade, conforme a totalidade.". Este singelo alguidar quer abarcar justamente essa totalidade, para isso teremos o tempo todo a preocupação indicada por Sartre (1970) "os fatos não são aparições isoladas, eles se produzem conjuntamente na unidade superior de um todo. Eles são unidos entre si por laços internos e a presença de cada um modifica os demais em sua natureza profunda.". Espero ter sido claro!


NOTAS SOBRE UMA TRAGÉDIA REPETIDA


Garoto chora ao deixar a escola Sandy Hook, em Newton,
nos EUA; ao menos 27 morrem após atirador disparar contra 
alunos e funcionários. Foto: Lucas Jackson, 14.dez.2012/Reuters.
Acesso em 17/12/2012.

Por: Luiz Pacheco.

Temos que admitir, muita coisa mudou na realidade escolar no Brasil e no Mundo, mas, infelizmente, muita coisa mudou pra pior. A tragédia na escola Sandy Hook da cidade de Newtown, em Connecticut (EUA), pode ser apenas a ponta de um enorme iceberg que parece está causando o mesmo dano causado pelo iceberg responsável pelo naufrágio do famoso navio Titanic. Resta-nos saber quem vai ficar na proa do navio da educação tocando os últimos acordes dessa sinfonia fúnebre que parece ter sido composta para embalar nossos mais terríveis pesadelos. A meu ver cabe aos gestores dos sistemas educacionais dos diferentes países, já que a tragédia parece ser global, pensar e por em prática estratégias de acompanhamento psicológico e monitoramento de saúde nas diferentes comunidades escolares. E o problema não é tão recente quanto parece; lembro-me que nos anos 80 um ex-professor da UFPA teve uma crise de nervos em pleno estacionamento do pavilhão "E" e agrediu um funcionário da limpeza por se sentir desrespeitado e aviltado em seus direitos e até mesmo prejudicado na realização de suas obrigações profissionais; depois do ocorrido o referido professor foi para sua residência enfartou e acabou morrendo! Sempre gosto de lembrar a máxima pedagógica que considera que as instituições de ensino são, na realidade, um microcosmo dentro de uma realidade macro da qual elas são parte integrante. Muitas vezes a sociedade coloca todas as suas expectativas nas instituições de ensino e cobra uma ação do profissional de educação que está além de sua capacidade operacional e mesmo de sua competência. A maioria dos pais terceiriza a educação de seus filhos e se esquece de fazer a sua parte, cobrando do professor uma competência que não é deles, e quando são chamados a serem parceiros da escola comportam-se como meros consumidores, esquecendo-se que eles são parte integrante do processo educativo... 

Para mim nenhuma crítica à prática educacional deve estar restrita exclusivamente aos agentes diretamente envolvidos no processo, ou seja, no caso alunos e professores. Alguns compreendem a educação como uma ação meramente voltada para a transmissão de conhecimento e informação, esquecendo-se de refletir sobre o papel desta informação e deste conhecimento transmitido na escola. Afinal para que deve servir o conteúdo escolar que é transmitido na escola? Como devemos vincular esse conteúdo com as nossas vidas? E, como os pais devem contribuir e participar do processo? Vale lembrar que, muitas vezes, os pais não tiveram uma boa formação escolar, tendo péssimas recordações do seu tempo de escola; muitos, até hoje, acham que a escola não lhes serviu para nada, embora não tenham coragem de assumir isso, e, além de tudo, defendem e reproduzem práticas sociais equivocadas, ultrapassadas, violentas, preconceituosas e segregacionistas que hoje, felizmente, são condenadas na escola, ainda que apenas formalmente. Esse quadro cria na cabeça de uma criança e de um adolescente em formação, além de uma profunda insegurança um grande conflito de valores e ideias que se traduzem, muitas vezes, em ações contraditórias e violentas, tanto na escola como em casa, no bairro, enfim na cidade. Vide o caso da pequena cidade de Newton com os seus aproximadamente 27 mil habitantes, mas com certeza este não é o único caso e, infelizmente, provavelmente não será o último. 

Acredito que somos todos partícipes do processo de formação das gerações futuras e a escola é apenas mais um instrumento, um meio que a sociedade criou para repassar seus valores e conhecimento para as novas gerações. Na realidade não é apenas a escola, através de seus professores, que educa nossas crianças e jovens e a educação/ensino não são uma via de mão única, todos nós nos educamos o tempo todo dentro e fora da escola, sejamos crianças, jovens, adultos, professores, pais, etc. Isto não quer dizer que a Escola não tenha a sua responsabilidade e o seu compromisso e os agentes de ensino não devam assumir o papel que lhes cabe neste processo. É necessário ainda distinguir educação de ensino, embora sejam processos interligados possuem caráter, abrangência e dinâmica própria. O processo de ensino é na realidade a um só tempo ensino e aprendizagem, pois quem tem a função de ensinar acaba também por aprender, daí se falar em ensino-aprendizagem, assim, junto e de forma indissociável. A educação por sua vez é mais abrangente e por isso mesmo, mais complexa, envolvendo um número maior de agentes participantes: Família, Escola, Estado, Igreja, Meios de comunicação, etc. Todas estas instituições sociais devem estar voltadas para a execução desses processos que em última análise permitem a sobrevivência e a continuidade de todo o construto social. 

Quanto à questão da violência dentro e fora da escola, penso que devemos estar atentos as ações e reações humanas, pois educar ou ensinar alguém são práticas sociais que necessitam de muita atenção, pois vão além da simples transmissão de ideias e informações.  Os pais, educadores, professores, gestores escolares, orientadores educacionais, psicólogos, orientadores espirituais e religiosos, etc. devem procurar perceber a linguagem corporal das crianças, jovens e adolescentes, a corporeidade que eles estabelecem com o mundo ao seu redor para poder percebê-los melhor. Também é preciso saber ouvir mais o que eles têm a dizer, às vezes falar menos e observar mais é a grande solução; deixar o outro se mostrar exercer a nossa alteridade e empatia, colocando-se no lugar do outro para poder prever as suas possíveis reações e, principalmente, seus anseios e expectativas; mostrando a eles o que pode ser alcançado naquele instante e o que não pode, evidenciando as razões e os porquês do sim e do não. É preciso saber dizer sim e saber dizer não e mostrar ao outro, ao aprendiz da vida, que todos sobrevivemos num ambiente cheio de frustrações, limites e não realizações, mas que nem por isso devemos desistir de viver ou achar que não vale a pena. Como já dizia o famoso poeta, “tudo vale a pena, se a alma não é pequena!”.

Quanto ao fato ocorrido nos EUA, a meu ver não existe um único culpado! Todos nós somos culpados! Precisamos mudar isso, cobrando de nós mesmos uma mudança de atitude e das autoridades constituídas uma tomada de decisão sobre as melhorias das condições gerais de ensino, envolvendo segurança, formação profissional, monitoramento e acompanhamento psicológico. Se este fato ocorreu nos EUA onde, geralmente, há esse monitoramento, imagina o que pode ocorrer aqui. Alias, não precisa nem imaginar basta acompanhar as últimas notícias sobre a violência nas escolas brasileiras, e o nosso estado do Pará, infelizmente, tem destaque neste assunto. Somente cobrando das autoridades de ensino, saúde e segurança pública é que poderemos, quem sabe, evitar novas tragédias aqui no Brasil, nos EUA e no mundo. Desarmar a sociedade, em todos os sentidos, talvez seja um passo interessante nesse processo de reorientação das pessoas pela e para a paz. De resto o que nos resta é lamentar a imprevidência, a falta de atitude e a ignorância de todos que não foram capazes de se antecipar e assim impedir este terrível acontecimento.