Garoto chora ao deixar a escola Sandy Hook, em Newton,
nos EUA; ao menos 27 morrem após atirador disparar contra
alunos e funcionários. Foto: Lucas Jackson, 14.dez.2012/Reuters.
Acesso em 17/12/2012.
Por: Luiz Pacheco.
Temos que admitir, muita coisa mudou na realidade escolar no Brasil e no Mundo, mas, infelizmente, muita coisa mudou pra pior. A tragédia na escola Sandy Hook da cidade de Newtown, em Connecticut (EUA), pode ser apenas a ponta de um enorme iceberg que parece está causando o mesmo dano causado pelo iceberg responsável pelo naufrágio do famoso navio Titanic. Resta-nos saber quem vai ficar na proa do navio da educação tocando os últimos acordes dessa sinfonia fúnebre que parece ter sido composta para embalar nossos mais terríveis pesadelos. A meu ver cabe aos gestores dos sistemas educacionais dos diferentes países, já que a tragédia parece ser global, pensar e por em prática estratégias de acompanhamento psicológico e monitoramento de saúde nas diferentes comunidades escolares. E o problema não é tão recente quanto parece; lembro-me que nos anos 80 um ex-professor da UFPA teve uma crise de nervos em pleno estacionamento do pavilhão "E" e agrediu um funcionário da limpeza por se sentir desrespeitado e aviltado em seus direitos e até mesmo prejudicado na realização de suas obrigações profissionais; depois do ocorrido o referido professor foi para sua residência enfartou e acabou morrendo! Sempre gosto de lembrar a máxima pedagógica que considera que as instituições de ensino são, na realidade, um microcosmo dentro de uma realidade macro da qual elas são parte integrante. Muitas vezes a sociedade coloca todas as suas expectativas nas instituições de ensino e cobra uma ação do profissional de educação que está além de sua capacidade operacional e mesmo de sua competência. A maioria dos pais terceiriza a educação de seus filhos e se esquece de fazer a sua parte, cobrando do professor uma competência que não é deles, e quando são chamados a serem parceiros da escola comportam-se como meros consumidores, esquecendo-se que eles são parte integrante do processo educativo...
Para mim nenhuma crítica à prática educacional deve estar restrita exclusivamente aos agentes diretamente envolvidos no processo, ou seja, no caso alunos e professores. Alguns compreendem a educação como uma ação meramente voltada para a transmissão de conhecimento e informação, esquecendo-se de refletir sobre o papel desta informação e deste conhecimento transmitido na escola. Afinal para que deve servir o conteúdo escolar que é transmitido na escola? Como devemos vincular esse conteúdo com as nossas vidas? E, como os pais devem contribuir e participar do processo? Vale lembrar que, muitas vezes, os pais não tiveram uma boa formação escolar, tendo péssimas recordações do seu tempo de escola; muitos, até hoje, acham que a escola não lhes serviu para nada, embora não tenham coragem de assumir isso, e, além de tudo, defendem e reproduzem práticas sociais equivocadas, ultrapassadas, violentas, preconceituosas e segregacionistas que hoje, felizmente, são condenadas na escola, ainda que apenas formalmente. Esse quadro cria na cabeça de uma criança e de um adolescente em formação, além de uma profunda insegurança um grande conflito de valores e ideias que se traduzem, muitas vezes, em ações contraditórias e violentas, tanto na escola como em casa, no bairro, enfim na cidade. Vide o caso da pequena cidade de Newton com os seus aproximadamente 27 mil habitantes, mas com certeza este não é o único caso e, infelizmente, provavelmente não será o último.
Acredito que somos todos partícipes do processo de formação das gerações futuras e a escola é apenas mais um instrumento, um meio que a sociedade criou para repassar seus valores e conhecimento para as novas gerações. Na realidade não é apenas a escola, através de seus professores, que educa nossas crianças e jovens e a educação/ensino não são uma via de mão única, todos nós nos educamos o tempo todo dentro e fora da escola, sejamos crianças, jovens, adultos, professores, pais, etc. Isto não quer dizer que a Escola não tenha a sua responsabilidade e o seu compromisso e os agentes de ensino não devam assumir o papel que lhes cabe neste processo. É necessário ainda distinguir educação de ensino, embora sejam processos interligados possuem caráter, abrangência e dinâmica própria. O processo de ensino é na realidade a um só tempo ensino e aprendizagem, pois quem tem a função de ensinar acaba também por aprender, daí se falar em ensino-aprendizagem, assim, junto e de forma indissociável. A educação por sua vez é mais abrangente e por isso mesmo, mais complexa, envolvendo um número maior de agentes participantes: Família, Escola, Estado, Igreja, Meios de comunicação, etc. Todas estas instituições sociais devem estar voltadas para a execução desses processos que em última análise permitem a sobrevivência e a continuidade de todo o construto social.
Quanto à questão da violência dentro e fora da escola, penso que devemos estar atentos as ações e reações humanas, pois educar ou ensinar alguém são práticas sociais que necessitam de muita atenção, pois vão além da simples transmissão de ideias e informações. Os pais, educadores, professores, gestores escolares, orientadores educacionais, psicólogos, orientadores espirituais e religiosos, etc. devem procurar perceber a linguagem corporal das crianças, jovens e adolescentes, a corporeidade que eles estabelecem com o mundo ao seu redor para poder percebê-los melhor. Também é preciso saber ouvir mais o que eles têm a dizer, às vezes falar menos e observar mais é a grande solução; deixar o outro se mostrar exercer a nossa alteridade e empatia, colocando-se no lugar do outro para poder prever as suas possíveis reações e, principalmente, seus anseios e expectativas; mostrando a eles o que pode ser alcançado naquele instante e o que não pode, evidenciando as razões e os porquês do sim e do não. É preciso saber dizer sim e saber dizer não e mostrar ao outro, ao aprendiz da vida, que todos sobrevivemos num ambiente cheio de frustrações, limites e não realizações, mas que nem por isso devemos desistir de viver ou achar que não vale a pena. Como já dizia o famoso poeta, “tudo vale a pena, se a alma não é pequena!”.
Quanto ao fato ocorrido nos EUA, a meu ver não existe um único culpado! Todos nós somos culpados! Precisamos mudar isso, cobrando de nós mesmos uma mudança de atitude e das autoridades constituídas uma tomada de decisão sobre as melhorias das condições gerais de ensino, envolvendo segurança, formação profissional, monitoramento e acompanhamento psicológico. Se este fato ocorreu nos EUA onde, geralmente, há esse monitoramento, imagina o que pode ocorrer aqui. Alias, não precisa nem imaginar basta acompanhar as últimas notícias sobre a violência nas escolas brasileiras, e o nosso estado do Pará, infelizmente, tem destaque neste assunto. Somente cobrando das autoridades de ensino, saúde e segurança pública é que poderemos, quem sabe, evitar novas tragédias aqui no Brasil, nos EUA e no mundo. Desarmar a sociedade, em todos os sentidos, talvez seja um passo interessante nesse processo de reorientação das pessoas pela e para a paz. De resto o que nos resta é lamentar a imprevidência, a falta de atitude e a ignorância de todos que não foram capazes de se antecipar e assim impedir este terrível acontecimento.