REMINISCÊNCIAS DA ÁGUA FRESQUINHA E
DO BANHO CHEIROSO NA TARDE CHUVOSA
DA BELA BELÉM
Prof. Luiz Pacheco
Este filtro me faz lembrar minha mãe, o meu querido bairro de canudos e a pia em forma de jirau, colocada na janela pelo de fora da casa, com vista para o quintal onde se avistava duas bananeiras, uma touceira de açaí, um pé de fruta-pão e outro de taperebá... Tempo de infância, inocência e de comer fruta fresquinha tirada do pé ou comprada na feira embrulhada em jornal de ontem e trazida pra casa em sacola de pano ou nylon colorido. Tempo em que eu sentia o cheiro de alho e cebola nas mãos de minha mãe quando ela me dava a água bem fresquinha, não gelada pra não fazer mal pra garganta, tirada daquele filtro. Tempo em que eu ficava na janela da sala olhando a garotada da vizinhança brincando de bola na rua, no meio da chuva das três horas da tarde, e eu vibrando e torcendo pelo gol do outro como se a jogada, o drible e o chute tivessem sido meu.
Tempo de paz, resignação, respeito aos mais velhos e de tomar sopa de feijão na hora do jantar. Tempo de solidariedade, respeito, periquito no açaizeiro do vizinho e de ruas calmas e molhadas... Tempo em que minha Belém era pura poesia, papagaio xinava na esquina, o vendedor de açaí fechava a venda depois das duas e do banheiro de casa exalava um cheiro de pau-Rosa vindo do banho tomado com o sabonete da Phebo. Ai que saudade!
Tenho saudade do carinho de minha mãe, do olhar vigilante do meu pai e do aroma de papel úmido que exalava das páginas da bíblia que ele lia, religiosamente, todos os dias... Neste tempo as pessoas tinham vergonha de serem sarcásticas ou irônicas, bebíamos a água fria do filtro sem a culpa de estar gastando mais energia com a porta da geladeira Frigidaire aberta; sem culpa pela construção de mais uma hidrelétrica na Amazônia. Eh, saudade!

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