MÚSICA, PRECONCEITO E OUTRAS REFLEXÕES.
Uma breve reflexão sobre os movimentos artísticos e musicais de forte apelo popular no Brasil.
Você gosta de Funk? Você gosta de música Brega? Você gosta de
Rock? Você gosta de Bolero? Você gosta de Axé? Você gosta de técno-melody? Você
gosta de Samba? Você gosta de quê? Você tem fome de quê? O que você pensa a
respeito dos estilos musicais e ritmos populares que tem origem popular e estão
impregnados na cultura de massa no Brasil?
Será que a sua, a minha, a nossa opinião está apoiada em uma
visão crítica de nossa sociedade ou simplesmente reproduz máximas que
fundamentam-se em uma visão e em uma postura preconceituosa que distingue
o que é bom do que é ruim por aquilo que é previamente estabelecido por alguém como
de bom-gosto ou de mau gosto. Será que quando você faz suas escolhas musicais você
não está apenas se deixando levar por suas memórias afetivas e querendo se
fechar nelas, sem se permitir encontrar novas coisas e desfrutar delas. Será
que você não está se fechando em um círculo vicioso de emoções, alegrias,
tristezas e desilusões que envolvem sentimentos e sensações que são até ricos,
mas também limitantes. A música não seria uma válvula de escape para a pressão do
dia-a-dia, uma expressão concreta de uma necessidade que todos temos de
sublimar o nosso cotidiano. Não é através da música que nos libertamos de
nossas dores, tristezas e melancolias e finalmente encontramos um caminho para
a alegria e para a superação daquilo que ainda não realizamos?
Quando os jovens da classe média carioca em plena Zona Sul da
cidade inventaram a Bossa Nova não era isso que eles queriam expressar: seus
sentimentos, desejos, amores e realizações. No entanto, será que este estilo
musical internacionalmente consagrado que é a Bossa Nova e que é tida e havida
pela elite intelectual e econômica brasileira como uma música de qualidade e representativa
de nossa cultura sempre foi vista desta maneira? Para que serve a música? Por que os seres
humanos em todas as culturas conhecidas utilizam a música em seus rituais
religiosos, festejos e eventos onde as pessoas se reúnem para se divertir e
comemorar o ciclo da vida, uma data especial, o final de um ciclo. A música
reproduz, condiciona e determina o ritmo da pulsação da vida, do batimento cardíaco,
da nossa respiração; ela nos ajuda a repousar seja depois da exaustão do
dia-a-dia, com ela o cansaço desaparece, o pensamento flui e a mente se libera
dos problemas acumulados. Depois da música e da consequente execução da dança
que ela determina o corpo esta mais leve, pronto para o repouso ou para o
reinicio de um novo ciclo. Essa dança pode ser forte sensual, pulsante, leve ou
suave como uma pluma ao vento - dois pra lá, dois pra cá! Pode até se dançar sem
se levantar de um cadeira (que digam os cadeirantes como eu), sem sair do
lugar, sem mexer o corpo, só com os olhos, com o pensamento a flutuar sobre uma
bela paisagem já vivida ou simplesmente imaginada. Afinal, a música popular
brasileira já decreta há algum tempo: quem não gosta de samba, bom sujeito não
é! É ruim da cabeça, ou doente do pé?
Voltando a falar de estilos e ritmos musicais populares,
muitos afirmam, sem medo de errar que o funk e outros estilos musicais populares
no Brasil (técno-melody, rock, etc.) são representativos da “alienação” cultural
de nossa sociedade; uma espécie de resultado da “invasão cultural” estrangeira
que fomos submetidos nos últimos anos e que modificou nossos hábitos e costumes,
“destruindo” nossa identidade cultural. Será? Será que é possível em manter uma
identidade cultural única qualquer lugar, em qualquer país, isolada de interferências
externas ou estrangeiras? Afinal, de onde vieram os ritmos e estilos musicais que
hoje, no século 21, são tidos como genuinamente brasileiros? Será que o samba ou
a chamada bossa nova são ritmos ou estilos de musica realmente originais do
Brasil? O que tem de raiz africana ou europeia no “nosso” samba? O que tem de
jazz e rhythm and blues na bossa nova? Será que um país, uma região ou um lugar
em qualquer pode e deve se manter alheio e resistente a qualquer influência
externa?
Algumas pessoas criticam os ritmos populares pela qualidade questionável
das letras dessas músicas, quase sempre tidas como vulgares e pobres
poeticamente falando, sendo, muitas vezes consideradas responsáveis pela banalização
e vulgarização da mulher. Esses críticos acreditam que essas canções corroem os
valores morais de nossa sociedade. Questiona-se também o fato das letras destas
músicas utilizarem uma linguagem vulgar, sendo marcadas por erros gramaticais. Esquecem-se,
estes críticos que seria impossível às camadas populares se expressarem,
utilizando uma linguagem gramaticalmente tida como correta para falar dos seus
dramas, amores e desafios cotidianos, se a formação escolar deles é marcada por
uma educação formal de qualidade duvidosa?
Quanto a representação da mulher nestas letras e sua métrica
poética, de fato elas seriam muito diferentes se comparássemos a letra de um
funk com a letra de uma famosas canção de Bossa Nova? Vejamos: a letra da música “Ela é Top” de Leo
Rodrigues diz o seguinte: “Deixa ela é passar, não olha nem mexe... Rá! Ela é terrível!
Ela não anda, ela desfila. Ela é top, capa de revista. É a mais-mais, ela
arrasa no look, tira foto no espelho pra postar no Facebook...”. A canção internacionalmente
conhecida de Tom Jobim, “Garota de Ipanema” descreve a mulher assim: “Olha que
coisa mais linda, mais cheia de graça é ela menina que vem e que passa, no doce
balanço a caminho do mar”.
Reflita: será que o conteúdo, a métrica poética e a forma de
expressar a admiração e o desejo pela mulher nestas duas canções foi muito
diferente? Ou será que ouvimos de forma diferente por causa do nosso
preconceito que está tão impregnado em cada um de nós que não percebemos o
verdadeiro conteúdo das coisas? Ou , será que foi a praia que mudou de lugar?
Se ligue, antes de criticar um estilo musical ou ritmo popular,
pare pra pensar e refletir de onde vem sua crítica, em que ela está apoiada. Há
alguns anos, no início do século 20, segundo diversos historiadores, as rodas
de samba no Rio de Janeiro eram tão proibidas quanto os bailes funks o são hoje
em dia.
Por outro lado, se é verdade que o funk é resultado de uma
influência musical que veio de fora do Brasil, como uma extensão da expressão
cultural e artística dos EUA, também é verdade que o nosso samba e a bossa nova
são resultantes de um cadeirão cultural que se formou nas cidades brasileiras.
O samba no início do século 20 e a bossa nova nos anos 50.
O samba se constituiu enquanto expressão artística, cultural
e musical especialmente no Rio de Janeiro e Salvador, quando os negros
descendentes de escravos que migraram do campo para as cidades resgataram os instrumentos
musicais e seus cantos, lamentos e batuques religiosos e mesclaram tudo isso com
instrumentos e ritmos oriundos da Europa – assim foi criado o samba.
É sabido que o samba nasceu e se desenvolveu no Rio de
Janeiro, e sua origem, está ligada a dança que era acompanhada por pequenas
frases melódicas e refrãos de criação anônima; sua origem está fortemente
ligado à presença dos negros que migraram da Bahia, na segunda metade do século
XIX, e se instalaram nos bairros cariocas da Saúde, da Gamboa e nos arredores
da Praça Onze. Portanto, não podemos esquecer que o samba é um gênero musical
que teve origem numa dança popular de origem africana presente nos bairros
periféricos do Rio de Janeiro.
O ritmo a dança que era praticada pelos ex-escravos e seus
descendentes acabou por incorporar outros estilos musicais que eram tocados nos
bailes da cidade e que tinham origem diversa, inclusive estrangeira, como a
polca, o maxixe, o lundu, o xote, entre outros. Por que então criticar o funk
por conta de sua origem estrangeira, será que o funk tocado na periferia do Rio
de Janeiro é igual ao funk norte-americano?
Sabemos que o funk é um gênero musical que se originou na segunda metade da década de 60,
através da mistura de diversos estilos feita por músicos afro-americanos; ele foi
criado a partir da mistura do soul music, do jazz e do rhythm and blues (R&B). Uma
característica musical comum entre o funk e o samba é a batida grave que no
samba vem dos instrumentos de percussão e no funk de um groove rítmico forte do
baixo elétrico e da bateria no fundo. O funk carioca, em particular, começa a
se formar nos anos 70, sendo também influenciado pelos estilos musicais
oriundos de Miami-EUA (Miami bass e o freestyle).
Gente! Vamos parar pra pensar, num contexto de cultura
globalizada em que vivemos o que é daqui e o que é de lá? Como podemos dizer o que
é genuinamente nosso e o que é simplesmente estrangeiro? Os músicos da bossa nova
também não foram influenciados pelo blues e pelo Jazz norte-americano? Por que será
que Frank Sinatra se sentiu tão à vontade em cantar “Girl from Ipanema” ao lado
de Tom Jobim no Canning Hall.
É preciso ter cuidado com o preconceito, se não você corre o
risco de ficar parecido com o seu avô dizendo pra sua mãe que esta ou aquela
música que ela está ouvindo é feia porque é estranha ou muito barulhenta, falta
isso ou aquilo, ou a letra é ruim porque é muito simples, ou pior ainda; essa
música não é boa porque é de pobre, preto e favelado... Olhe para o seu passado
e veja se lá no meio dele não existe um pobre, preto ou favelado que foi
discriminado por ser diferente ou por ter tido a coragem de fazer, cantar ou
dizer algo que ninguém faria, cantaria ou diria. O pior é a critica sobre o
jeito de dançar tido como vulgar porque mexe com a pélvis, com o glúteo (pra
quem não está entendendo quadril e bunda), como se fosse possível dançar sem
mexer essas partes do corpo. Na realidade, há um tremendo receio e pavor em
mexer com alguma coisa tão próxima do sexo; que, aliás, continua sendo um
grande tabu em nossa sociedade. Infelizmente, uma grande quantidade de pessoas
continua achando que o melhor caminho sobre este assunto é a repressão, isto
porque é difícil lidar com o próprio desejo, com o medo da rejeição do seu
desejo, com o medo de fazer aquilo que realmente gostaria de fazer, mas isto é
pauta para outra postagem.
Por enquanto eu fico com essa bela poesia: “Eu só quero é ser
feliz! Andar,
tranquilamente, na favela onde eu nasci, é! E poder me orgulhar, e ter a
consciência que o pobre tem seu lugar...”. O lugar é o que todos nós queremos
ninguém vive sem um lugar; deve ser por isso que gosto tanto dessa canção, pois
o lugar é a categoria básica de toda e qualquer análise geográfica, não existiria
geografia se não houvesse lugar. A minha geografia é o meu lugar e o hino dele
são as músicas que tocam ali.



