quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

MÚSICA, PRECONCEITO E OUTRAS REFLEXÕES.



MÚSICA, PRECONCEITO E OUTRAS REFLEXÕES.

Uma breve reflexão sobre os movimentos artísticos e musicais de forte apelo popular no Brasil.




Você gosta de Funk? Você gosta de música Brega? Você gosta de Rock? Você gosta de Bolero? Você gosta de Axé? Você gosta de técno-melody? Você gosta de Samba? Você gosta de quê? Você tem fome de quê? O que você pensa a respeito dos estilos musicais e ritmos populares que tem origem popular e estão impregnados na cultura de massa no Brasil?

Será que a sua, a minha, a nossa opinião está apoiada em uma visão crítica de nossa sociedade ou simplesmente reproduz máximas que fundamentam-se em uma visão e em uma postura preconceituosa que  distingue o que é bom do que é ruim por aquilo que é previamente estabelecido por alguém como de bom-gosto ou de mau gosto. Será que quando você faz suas escolhas musicais você não está apenas se deixando levar por suas memórias afetivas e querendo se fechar nelas, sem se permitir encontrar novas coisas e desfrutar delas. Será que você não está se fechando em um círculo vicioso de emoções, alegrias, tristezas e desilusões que envolvem sentimentos e sensações que são até ricos, mas também limitantes. A música não seria uma válvula de escape para a pressão do dia-a-dia, uma expressão concreta de uma necessidade que todos temos de sublimar o nosso cotidiano. Não é através da música que nos libertamos de nossas dores, tristezas e melancolias e finalmente encontramos um caminho para a alegria e para a superação daquilo que ainda não realizamos?

Quando os jovens da classe média carioca em plena Zona Sul da cidade inventaram a Bossa Nova não era isso que eles queriam expressar: seus sentimentos, desejos, amores e realizações. No entanto, será que este estilo musical internacionalmente consagrado que é a Bossa Nova e que é tida e havida pela elite intelectual e econômica brasileira como uma música de qualidade e representativa de nossa cultura sempre foi vista desta maneira?  Para que serve a música? Por que os seres humanos em todas as culturas conhecidas utilizam a música em seus rituais religiosos, festejos e eventos onde as pessoas se reúnem para se divertir e comemorar o ciclo da vida, uma data especial, o final de um ciclo. A música reproduz, condiciona e determina o ritmo da pulsação da vida, do batimento cardíaco, da nossa respiração; ela nos ajuda a repousar seja depois da exaustão do dia-a-dia, com ela o cansaço desaparece, o pensamento flui e a mente se libera dos problemas acumulados. Depois da música e da consequente execução da dança que ela determina o corpo esta mais leve, pronto para o repouso ou para o reinicio de um novo ciclo. Essa dança pode ser forte sensual, pulsante, leve ou suave como uma pluma ao vento - dois pra lá, dois pra cá! Pode até se dançar sem se levantar de um cadeira (que digam os cadeirantes como eu), sem sair do lugar, sem mexer o corpo, só com os olhos, com o pensamento a flutuar sobre uma bela paisagem já vivida ou simplesmente imaginada. Afinal, a música popular brasileira já decreta há algum tempo: quem não gosta de samba, bom sujeito não é! É ruim da cabeça, ou doente do pé?

Voltando a falar de estilos e ritmos musicais populares, muitos afirmam, sem medo de errar que o funk e outros estilos musicais populares no Brasil (técno-melody, rock, etc.) são representativos da “alienação” cultural de nossa sociedade; uma espécie de resultado da “invasão cultural” estrangeira que fomos submetidos nos últimos anos e que modificou nossos hábitos e costumes, “destruindo” nossa identidade cultural. Será? Será que é possível em manter uma identidade cultural única qualquer lugar, em qualquer país, isolada de interferências externas ou estrangeiras? Afinal, de onde vieram os ritmos e estilos musicais que hoje, no século 21, são tidos como genuinamente brasileiros? Será que o samba ou a chamada bossa nova são ritmos ou estilos de musica realmente originais do Brasil? O que tem de raiz africana ou europeia no “nosso” samba? O que tem de jazz e rhythm and blues na bossa nova? Será que um país, uma região ou um lugar em qualquer pode e deve se manter alheio e resistente a qualquer influência externa?

Algumas pessoas criticam os ritmos populares pela qualidade questionável das letras dessas músicas, quase sempre tidas como vulgares e pobres poeticamente falando, sendo, muitas vezes consideradas responsáveis pela banalização e vulgarização da mulher. Esses críticos acreditam que essas canções corroem os valores morais de nossa sociedade. Questiona-se também o fato das letras destas músicas utilizarem uma linguagem vulgar, sendo marcadas por erros gramaticais. Esquecem-se, estes críticos que seria impossível às camadas populares se expressarem, utilizando uma linguagem gramaticalmente tida como correta para falar dos seus dramas, amores e desafios cotidianos, se a formação escolar deles é marcada por uma educação formal de qualidade duvidosa?

Quanto a representação da mulher nestas letras e sua métrica poética, de fato elas seriam muito diferentes se comparássemos a letra de um funk com a letra de uma famosas canção de Bossa Nova?  Vejamos: a letra da música “Ela é Top” de Leo Rodrigues diz o seguinte: “Deixa ela é passar, não olha nem mexe... Rá! Ela é terrível! Ela não anda, ela desfila. Ela é top, capa de revista. É a mais-mais, ela arrasa no look, tira foto no espelho pra postar no Facebook...”. A canção internacionalmente conhecida de Tom Jobim, “Garota de Ipanema” descreve a mulher assim: “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça é ela menina que vem e que passa, no doce balanço a caminho do mar”.

Reflita: será que o conteúdo, a métrica poética e a forma de expressar a admiração e o desejo pela mulher nestas duas canções foi muito diferente? Ou será que ouvimos de forma diferente por causa do nosso preconceito que está tão impregnado em cada um de nós que não percebemos o verdadeiro conteúdo das coisas? Ou , será que foi a praia que mudou de lugar?

Se ligue, antes de criticar um estilo musical ou ritmo popular, pare pra pensar e refletir de onde vem sua crítica, em que ela está apoiada. Há alguns anos, no início do século 20, segundo diversos historiadores, as rodas de samba no Rio de Janeiro eram tão proibidas quanto os bailes funks o são hoje em dia.
Por outro lado, se é verdade que o funk é resultado de uma influência musical que veio de fora do Brasil, como uma extensão da expressão cultural e artística dos EUA, também é verdade que o nosso samba e a bossa nova são resultantes de um cadeirão cultural que se formou nas cidades brasileiras. O samba no início do século 20 e a bossa nova nos anos 50.

O samba se constituiu enquanto expressão artística, cultural e musical especialmente no Rio de Janeiro e Salvador, quando os negros descendentes de escravos que migraram do campo para as cidades resgataram os instrumentos musicais e seus cantos, lamentos e batuques religiosos e mesclaram tudo isso com instrumentos e ritmos oriundos da Europa – assim foi criado o samba.

É sabido que o samba nasceu e se desenvolveu no Rio de Janeiro, e sua origem, está ligada a dança que era acompanhada por pequenas frases melódicas e refrãos de criação anônima; sua origem está fortemente ligado à presença dos negros que migraram da Bahia, na segunda metade do século XIX, e se instalaram nos bairros cariocas da Saúde, da Gamboa e nos arredores da Praça Onze. Portanto, não podemos esquecer que o samba é um gênero musical que teve origem numa dança popular de origem africana presente nos bairros periféricos do Rio de Janeiro.

O ritmo a dança que era praticada pelos ex-escravos e seus descendentes acabou por incorporar outros estilos musicais que eram tocados nos bailes da cidade e que tinham origem diversa, inclusive estrangeira, como a polca, o maxixe, o lundu, o xote, entre outros. Por que então criticar o funk por conta de sua origem estrangeira, será que o funk tocado na periferia do Rio de Janeiro é igual ao funk norte-americano?

Sabemos que o funk é um gênero musical que se originou na segunda metade da década de 60, através da mistura de diversos estilos feita por músicos afro-americanos; ele foi criado a partir da mistura do soul music, do jazz e do rhythm and blues (R&B). Uma característica musical comum entre o funk e o samba é a batida grave que no samba vem dos instrumentos de percussão e no funk de um groove rítmico forte do baixo elétrico e da bateria no fundo. O funk carioca, em particular, começa a se formar nos anos 70, sendo também influenciado pelos estilos musicais oriundos de Miami-EUA (Miami bass e o freestyle).

Gente! Vamos parar pra pensar, num contexto de cultura globalizada em que vivemos o que é daqui e o que é de lá? Como podemos dizer o que é genuinamente nosso e o que é simplesmente estrangeiro? Os músicos da bossa nova também não foram influenciados pelo blues e pelo Jazz norte-americano? Por que será que Frank Sinatra se sentiu tão à vontade em cantar “Girl from Ipanema” ao lado de Tom Jobim no Canning Hall.

É preciso ter cuidado com o preconceito, se não você corre o risco de ficar parecido com o seu avô dizendo pra sua mãe que esta ou aquela música que ela está ouvindo é feia porque é estranha ou muito barulhenta, falta isso ou aquilo, ou a letra é ruim porque é muito simples, ou pior ainda; essa música não é boa porque é de pobre, preto e favelado... Olhe para o seu passado e veja se lá no meio dele não existe um pobre, preto ou favelado que foi discriminado por ser diferente ou por ter tido a coragem de fazer, cantar ou dizer algo que ninguém faria, cantaria ou diria. O pior é a critica sobre o jeito de dançar tido como vulgar porque mexe com a pélvis, com o glúteo (pra quem não está entendendo quadril e bunda), como se fosse possível dançar sem mexer essas partes do corpo. Na realidade, há um tremendo receio e pavor em mexer com alguma coisa tão próxima do sexo; que, aliás, continua sendo um grande tabu em nossa sociedade. Infelizmente, uma grande quantidade de pessoas continua achando que o melhor caminho sobre este assunto é a repressão, isto porque é difícil lidar com o próprio desejo, com o medo da rejeição do seu desejo, com o medo de fazer aquilo que realmente gostaria de fazer, mas isto é pauta para outra postagem.

Por enquanto eu fico com essa bela poesia: “Eu só quero é ser feliz! Andar, tranquilamente, na favela onde eu nasci, é! E poder me orgulhar, e ter a consciência que o pobre tem seu lugar...”. O lugar é o que todos nós queremos ninguém vive sem um lugar; deve ser por isso que gosto tanto dessa canção, pois o lugar é a categoria básica de toda e qualquer análise geográfica, não existiria geografia se não houvesse lugar. A minha geografia é o meu lugar e o hino dele são as músicas que tocam ali. 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

TRAGÉDIA EM SANTA MARIA (RS) - EM BUSCA DE UMA CONCLUSÃO.



 ATÉ QUANDO VAMOS CONTINUAR ASSIM?



Está confirmado! A Boate Kiss em Santa Maria (RS) estava em desacordo com a legislação em vigor no Rio Grande do Sul que orienta aos estabelecimentos noturnos a obedecerem às especificações estabelecidas pela NBR 9077 da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas. Pela referida norma a Boate é classificada como uma edificação pertencente ao Grupo “F”, onde também estão incluídos outros locais de reunião de público como clubes sociais, clubes noturnos, salões de baile, bares, restaurantes, estádios, ginásios e piscinas cobertas, arenas em geral, estações e terminais rodoferroviários, aeroportos, teatros, cinemas, óperas, auditórios, estúdios de rádio e televisão, etc.

 De acordo com esta norma, a capacidade máxima para este tipo de estabelecimento é de duas pessoas por cada metro quadrado de área (1: 0,5 m2); se o imóvel tinha cerca de 750 m², conforme vem sendo veiculado pela imprensa, a sua capacidade total era de aproximadamente 1.300 pessoas. A mesma norma estabelece que para um estabelecimento com aquelas dimensões e características deveria haver pelo menos duas saídas de emergência.

A norma em questão estabelece não somente a necessidade da saída de emergência como também a necessidade de haver um alçapão de alívio de fumaça (alçapão de tiragem) que seria uma abertura horizontal localizada na parte mais elevada da cobertura da edificação ou de parte desta. Este alçapão, em caso de incêndio, poderia ser aberto de forma manual ou automaticamente, para deixar a fumaça escapar. Também orienta a respeito da criação de um duto de saída de ar que seria um espaço vertical no interior da edificação, que permita a saída, em qualquer pavimento, de gases e fumaça para o ar livre.

De acordo com a NBR 9077, a saída de emergência nestes estabelecimentos deve compreender os seguintes elementos: a) acessos ou rotas de saídas horizontais, isto é, às escadas, quando houver, e respectivas portas ou ao espaço livre exterior, nas edificações térreas; b) escadas ou rampas; c) descarga. Para a ABNT as saídas de emergência devem ser dimensionadas em função da capacidade da edificação, tendo que atender às seguintes condições: permitir o escoamento fácil de todos os ocupantes do prédio; permanecer desobstruídos em todos os pavimentos; ter larguras mínimas de 1,10 m, correspondendo a duas unidades de passagem; ter pé-direito mínimo de 2,50 m com exceção de obstáculos representados por vigas, vergas de portas, e outros, cuja altura mínima livre deve ser de 2,00 m; ser sinalizados e iluminados com indicação clara do sentido da saída, de acordo com o estabelecido. Vale ressaltar que a norma orienta que a largura das saídas, incluindo os acessos, escadas, rampas, descargas, e outros, deve ser calculada por uma fórmula que leva em consideração a capacidade do imóvel (sua população), o número de unidades de passagem e a capacidade de fluxo de cada unidade de passagem. 

Em outro item a NBR 9077 estabelece que as escadas, rampas e descargas devem ser dimensionadas em função da dimensão do pavimento do imóvel que tiver maior capacidade. A norma da ABNT, também estabelece que o uso de rampas seja obrigatório nos seguintes casos: a) para unir dois pavimentos de diferentes níveis em acessos a áreas de refúgio; b) na descarga e acesso de elevadores de emergência; c) sempre que a altura a vencer for inferior a 0,48 m, já que são vedados lances de escadas com menos de três degraus; d) quando a altura não permitir o dimensionamento equilibrado dos degraus de uma escada; e) para unir o nível externo ao nível do saguão térreo das edificações em que houver usuário. As rampas não podem terminar em degraus ou soleiras, devendo ser precedidas e sucedidas sempre por patamares planos.

O documento também normatiza as características que devem possuir outros tipos de edificações como escolas, hospitais, residenciais, shoppings, etc. Só falta então tomarmos ciências dessas especificações e o poder público criar instrumentos legais para que as mesmas sejam cumpridas. Vamos à luta!

No link a seguir é possível fazer o download da NBR 9077.

http://ebookbrowse.com/nbr-9077-saidas-de-emergencia-em-edificios-pdf-d324307493


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

OUTRAS REFLEXÕES SOBRE A TRAGÉDIA DE SANTA MARIA (RS).



RETOMANDO O FATO OCORRIDO EM SANTA MARIA (RS) –
 REARTICULANDO AS IDEIAS.
Prof. Luiz Pacheco



O fato ocorrido em Santa Maria (RS) tem mobilizado centenas e até milhares de pessoas que se manifestam através da imprensa formal e, principalmente, das redes sociais. Em relação a este assunto eu gostaria de retomar alguns pontos que afirmei no comentário que fiz depois da postagem anterior neste blog. O texto original do referido comentário, compartilhado na minha rede social (Facebook) dizia o seguinte: “Vejam só, mais uma vez a injustiça está em curso em nosso país, dois integrantes da banda que se apresentava na boate Kiss em Santa Maria (RS) foram presos”.  Tentando esclarecer melhor este meu ponto de vista, afirmo que quando se faz justiça de maneira parcial está se cometendo um ato de injustiça.

Todos nós sabemos que no universo de shows business e espetáculos no Brasil a realização destes eventos é alcançada através de uma rede de gestão privada que articula um comando empresarial com a classe artística; contando, muitas vezes, com o apoio do setor público, para assumir a responsabilidade de planejar e realizar os eventos artísticos e culturais nas diferentes cidades brasileiras. Enfim, é esta rede constituída por empresários, produtores e gestores públicos e privados que viabiliza a realização destes eventos.  Evidentemente, nesta rede existem os que mandam e os que obedecem que, neste caso, em geral, é o artista contratado; obviamente existem situações em que o “artista”, por iniciativa própria, acaba tendo que assumir também a função empresarial, acumulando, assim, diversos papeis: empresário, executor da atividade artística, produtor e técnico de operações.

Quando os fatos relacionados à tragédia de Santa Maria (RS) começaram a ser veiculados pela imprensa formal, a mim pareceu que o vocalista da banda era apenas mais um mero executor da atividade artística, e, como tal, também haviam lhe atribuído o papel de acender o famigerado sinalizador. Como essa ação havia sido planejada pelo produtor do evento para atrair o público para o show, a este hipotético personagem cabia uma parcela maior de responsabilidade sobre a tragédia. No entanto, neste momento, revejo minha posição anterior, no sentido de aguardar de forma mais cautelosa o andamento das investigações.

O meu entendimento atual é de que quando força policial resolveu prender provisoriamente o rapaz, ela o fez para coibir qualquer tentativa de ação que possa prejudicar as investigações. Diante desta nova perspectiva, passo a defender a tese de que é precipitado, de nossa parte, qualquer julgamento definitivo a respeito da ação policial, uma vez que houve a prisão apenas do vocalista, os demais músicos da banda permanecem soltos. Assim, passo a acreditar que deve ter havido um motivo muito plausível e específico para a deliberação da prisão provisória do referido vocalista.

Na realidade, nos faltam algumas informações mais específicas sobre o caso; será que a prisão do vocalista foi motivada pelo simples fato dele ter sido o executor direto da ação? Será que este o rapaz em questão é apenas o vocalista da banda? Ele tem alguma participação empresarial no planejamento, deliberação e produção daquilo que é realizado? De fato, ainda não detemos as respostas para todos estes questionamentos; dai a necessidade de aguardarmos o andamento das investigações. O que ficou para a maioria das pessoas e, ao que parece, também para a polícia, foi o fato em si, dele ter sido o sujeito da ação que provocou o incêndio. É importante frisar que se trata de uma prisão provisória, cuja deliberação tem inúmeras justificativas, mas a principal é a de garantir o bom andamento das investigações.

Voltando ao fato em si, eu considero que um agravante em todo o problema foi a evidente superlotação da boate e a falta de saídas de emergência. Em relação ao primeiro aspecto, todos nós sabemos que para os empresários deste setor quanto mais gente pagar na bilheteria pelo espetáculo melhor para as finanças do empreendimento; daí eles terem negligenciado a capacidade de lotação do estabelecimento. O fato não teria ocorrido se tivesse sido levado em consideração a real capacidade física do estabelecimento. Em relação à falta de saídas de emergência no prédio, fica claro a responsabilidade direta dos proprietários do estabelecimento. O que ainda não está claro, é se existia, de fato, a exigência normativa por parte da prefeitura ou do governo estadual para que houvesse naquele local uma ou mais saídas de emergência. Além disso, falta esclarecer também por que a boate estava funcionando, uma vez que os próprios proprietários do estabelecimento já assumiram que o alvará de funcionamento do mesmo estava vencido. Um questão preciosa, diz respeito à necessidade de serem revistos todos os critérios locais e nacionais e os procedimentos para regulação deste tipo de estabelecimento; em entrevista veiculada pelo Jornal Nacional, um especialista sobre este assunto afirmou que um estabelecimento com aquela dimensão, de acordo com as normas internacionais, deveria ter não apenas uma, mas, pelo menos duas saídas de emergência.

Particularmente, entendo que a responsabilidade final pelo lamentável ocorrido cabe principalmente aos empresários contratantes da banda, aos donos da casa noturna e ao empresário e produtor da própria banda. Quanto ao vocalista da banda, ao que parece, se ele foi um mero executor da ação, ele teria uma responsabilidade menor. Este argumento é o que fundamentou meu posicionamento anterior, porém é reconheço a necessidade de que todas as circunstâncias que envolvem a tragédia sejam totalmente esclarecidas. Em relação aos demais músicos, a meu ver, estes teriam sido apenas vítimas da tragédia. De qualquer maneira, acredito que faltam mais informações para um julgamento final, a minha preocupação é que não haja um pré-julgamento dos músicos, pois, normalmente, nestes casos a “corda” tende a arrebentar apenas do lado mais fraco.

Um aspecto fundamental em toda essa tragédia diz respeito a responsabilidade do poder público, uma vez que cabe aos órgãos competentes ligados a prefeitura municipal e ao governo estadual o papel normativo, regulador e fiscalizador dessas atividades. Era o poder público municipal e o corpo de bombeiros do Rio Grande do Sul que não deveriam ter permitido o funcionamento desta casa noturna, sem a devida regularização do alvará de funcionamento, a fiscalização e consequente liberação do estabelecimento. Caso as normas locais permitam o funcionamento da boate naquelas condições, onde o aspecto estético suplanta as exigências funcionais e técnicas, cabe, então, uma revisão geral destas normas. Para mim fica evidente, pelas imagens amplamente veiculadas pela imprensa nacional e pela internet, que aquela casa devido sua capacidade de lotação precisava de pelo menos mais uma saída de emergência. Uma única porta, bloqueada por barreiras internas e divisórias do espaço físico da boate, não daria vazão ao esvaziamento do recinto em uma situação de pânico; fato este que, infelizmente, ficou comprovado na prática.

Vale lembrar que, pelo menos aparentemente, as características daquela casa noturna são bastante  semelhantes às características das melhores casas noturnas de Belém. Infelizmente, até agora, não observei nenhuma ação contundente por parte da polícia e de outras esferas de poder para averiguar as responsabilidades dos órgãos públicos municipais, do próprio gestor municipal e do corpo de bombeiros.

Outro aspecto que precisa ser revisto por todos nós, diz respeito às críticas que alguns internautas fazem sobre a postura possivelmente sensacionalista da imprensa formal e até de alguns usuários das redes sociais da Internet. É claro que o exagero de algumas coberturas jornalísticas e a espetacularização das imagens  da tragédia não podem ser apoiadas, mas entendo que a comoção nacional que se criou em torno do fato ocorrido, provocada pela imprensa e redes sociais, pode cumprir um papel fundamental no processo de mudança de postura e atitude por parte de todos os envolvidos, principalmente por parte dos poderes constituído, mas também dos consumidores e das classes empresarial e artística.

Vale reafirmar que mesmo considerando os possíveis interesses comerciais e de audiência que gravitam em torno da divulgação da tragédia, por parte da imprensa formal, a comoção criada em torno do fato cumpre um papel importantíssimo no processo de conscientização da sociedade civil; pois ela pode provocar uma tomada de consciência e uma mudança nos critérios de liberação para funcionamento dos espaços de entretenimento em nosso país. Neste momento, entendo que o foco de nossa crítica não deva ser dirigido à imprensa formal e seus interesses comerciais, mas à ação irresponsável dos provocadores da tragédia e à omissão do poder público que permitiram o funcionamento irregular da boate.

Finalmente, queria lembrar que já vivemos, aqui em Belém do Pará, situações semelhantes, marcadas por dois incêndios em duas boates que inclusive pertenciam a um “notável” cidadão que até cargo público eletivo ocupou. Quem sabe, se com a repercussão nacional e internacional da tragédia de Santa Maria (RS), possamos alcançar uma mudança nos instrumentos de gestão e regulação que orientam o funcionamento desses empreendimentos no Brasil? Também acredito numa possível mudança de postura do cidadão/consumidor que poderá, a partir deste fato, avaliar com mais rigidez e rigor os espaços de lazer e entretenimento que escolhe para frequentar. Afinal, somos nós que detemos a força politica e financeira que alimenta esses empreendimentos. Creio que é necessário haver uma reestruturação das instituições sociais reguladoras e fiscalizadoras desse tipo de atividade e que precisamos dizer um basta! Desejamos que o poder público, em todas as cidades deste país, reveja sua postura, muitas vezes omissa diante desses problemas, e, assim, os órgãos governamentais responsáveis pela fiscalização e controle dessas atividades cumpram o seu papel.













domingo, 27 de janeiro de 2013

REFLEXÕES PESSOAIS SOBRE TRAGÉDIA DE SANTA MARIA (RS)


Minha reflexão pessoal sobre o 
drama dos jovens universitários de Santa Maria (RS) 
e seus familiares

Prof. Luiz Pacheco

Todos os brasileiros ficaram, neste último domingo (27/01), estarrecidos com o fato ocorrido na cidade de Santa Maria (RS), quando dezenas pessoas, em sua maioria jovens estudantes universitários, perderam sua vida devido a negligência de alguns e a falta de cuidado com a vida humana.

Por tudo que eu já vi e li sobre o assunto e também pela minha parca vivência em ambientes noturnos aqui em Belém, eu tenho certeza de que esta boate do Rio Grande do Sul não possuía saída de emergência, extintores suficientes e funcionando, captadores de fumaça e outros equipamentos de segurança. Além disso, fica evidente a falta de treinamento dos seguranças que atuam nesses espaços para lidar com esse tipo de situação. O problema é que este não me parece um caso isolado, eu acredito que a sociedade precisa se posicionar e deixar de frequentar locais que não ofereçam segurança, conforto, acessibilidade e garantia de bem estar para quem deseja ir a um local para se divertir comer, brincar, dançar, etc. A sociedade brasileira precisa aumentar o seu padrão de exigência e cada indivíduo enquanto cidadão e consumidor tem o direito de cobrar qualidade de serviço nos locais que frequenta.

No caso de Santa Maria, temos que, infelizmente, considerar o problema da imprudência da juventude que sempre acha que nada de mal vai lhe acontecer. Infelizmente somente o tempo é que nos ensina a refletir e analisar melhor os ambientes que frequentamos e as situações que nos colocamos, considerando o nível de segurança desses ambientes e até mesmo a qualidade do serviço que eles prestam.

Por essa razão, penso que para prevenir e evitar este tipo lamentável de ocorrência é que devemos cobrar do poder público uma ação reguladora, fiscalizadora e punitiva em relação à realização de eventos e shows em bares, boates, danceterias, clubes, logradouros públicos, etc. Não podemos nos omitir diante de atitudes irresponsáveis como a dos empresários, donos do local onde foi realizado o show, e a atitude dos produtores deste show que não planejaram adequadamente o evento. Aliás, normalmente quem produz esse tipo de evento não se preocupa com a infraestrutura para a sua realização, preocupa-se apenas com o aspecto mercadológico deixando o bem estar e a segurança do cidadão/consumidor, que pagou para assistir o espetáculo, em segundo plano; o que dizer, então a respeito da preocupação que eles deveriam ter com a população que, de alguma maneira, poderia ter sido atingida pelo evento? Já imaginou se o incêndio tivesse se propagado e atingido outros imóveis daquela rua?

Entendo, ainda, que é necessário haver maior esclarecimento e orientação à população em geral, além de se exigir um treinamento básico dos funcionários destes estabelecimentos para situações de emergência, podendo, inclusive se estabelecer a exigência da criação de uma brigada de incêndio para realização de eventos de grande e médio porte.

O que é lamentável neste caso, de acordo com o que foi veiculado pelas redes sociais e imprensa em geral, é que os jovens que ali estavam pagaram para assistir um show e acabaram morrendo, devido uma orientação dos empresários e produtores para ninguém sair do local sem pagar e é óbvio que o local não oferecia as mínimas condições de segurança. Assim, neste caso, não basta nos comovermos com o drama pessoal das famílias, é preciso mudar a nossa forma de pensar e agir e cobrar das autoridades maior fiscalização e controle na qualidade da prestação de serviços.   

Quanto ao papel da mídia em situações como esta, eu penso que há uma diferença fundamental entre informar a sociedade e "espetacularizar a tragédia". Esta diferença pode ser sentida através do enfoque que é dado ao problema, através do discurso elaborado sobre o assunto e até do tipo de imagem que é veiculada. Os programas que se prendem mais ao drama pessoal dos envolvidos tendem a ser mais sentimentais e sensacionalistas,  acabam deixando de lado a raiz do problema. Isto não quer dizer que não devamos usar o sentimento, mas precisamos, a partir dessa comoção pessoal, nos posicionar e exigir uma mudança de atitude por parte dos órgãos que fiscalizam e liberam o funcionamento desses espaços. No mínimo devemos iniciar um amplo debate sobre este assunto.  Neste caso, o papel da imprensa é informar a sociedade, buscando o esclarecimento dos fatos e orientando as pessoas para uma tomada de consciência e/ou uma mudança de atitude, ou seja, a mídia formal e as redes sociais têm um papel educacional e político fundamental que está relacionado à formação do cidadão. Para mim, não existe cidadania sem informação!
Para concluir, eu afirmo que não é possível se colocar pessoas em situação de risco e chamar isso de acidente. No campo jurídico existe uma diferença básica entre ação dolosa e culposa, talvez, neste caso, não haja uma culpabilidade clara, única e exclusiva, mas com certeza houve uma ação dolosa à vida humana; isto não pode ser negligenciado por ninguém, principalmente pelas autoridades constituídas que foram, e, normalmente, têm sido omissas no seu papel de regular e fiscalizar o funcionamento dos espaços públicos ou de uso coletivo. Afinal, além do pagamento ao serviço de lazer que seria prestado pela produtora do evento e pelo empresário da boate, os pais daqueles jovens e eles mesmos também pagam seus impostos.

Onde já se viu permitir o funcionamento de uma casa noturna sem saída de emergência? Usar um sinalizador em um local cheio de pessoas e material inflamável e achar isso normal? Criar espaços de consumo do lazer sem ventilação natural ou janelas que permitam se estabelecer essas ventilação e, até mesmo, acesso alternativo ao interior do estabelecimento? Oferecer um serviço e não está capacitado para isto? Enfim, tudo isso é LAMENTÁVEL!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O QUE FAZER DIANTE DO RACISMO?

Racismo é crime!

 (LEI Nº 7.716, DE 5 DE JANEIRO DE 1989.)

É lamentável que em pleno século 21 ainda nos deparemos com atitudes racistas e preconceituosas. A base do racismo é o preconceito que se fundamenta na ignorância e na má formação individual, familiar, política, acadêmica e social das pessoas. É necessário haver uma mudança de mentalidade, nenhuma etnia ou cultura, que erroneamente é associada ao conceito de raça, deve ser considerada superior. Só existe uma única raça: a raça humana. Historicamente falando, ao longo do processo civilizatório todos os povos participaram e contribuíram para o avanço e desenvolvimento da humanidade. Cada povo participou deste processo dando sua contribuição única e particular. Na formação sócio-econômica do Brasil os negros e seus descendentes tiveram grande participação na vida econômica, social, política e cultural de nosso país. Nenhum tipo de discriminação e/ou preconceito racial ou de qualquer outra natureza deve existir ou ser justificado.Fato recente, divulgado pela mídia e redes sociais, envolvendo um casal com um filho negro, adotado. vítima de preconceito em uma concessionária de veículos evidencia que, infelizmente, nossa sociedade ainda não conseguiu se libertar do preconceito e da discriminação racial. A meu ver, neste caso não cabe uma punição individual ao funcionário da empresa, mas uma indenização por parte da empresa que, obviamente, não irá eliminar o fato ocorrido, mas desestimular outras ações dessa natureza.


A Rede Globo de televisão veiculou reportagem sobre o problema. Veja a matéria:

http://globotv.globo.com/rede-globo/jornal-hoje/v/crianca-e-vitima-de-preconceito-racial-em-concessionaria-de-carros-no-rj/2364962/

 O fato pode ser melhor compreendido acessando a página criada para divulgá-lo na rede social.

https://www.facebook.com/pages/Preconceito-Racial-N%C3%A3o-%C3%89-Mal-Entendido/414800408601029