quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

MÚSICA, PRECONCEITO E OUTRAS REFLEXÕES.



MÚSICA, PRECONCEITO E OUTRAS REFLEXÕES.

Uma breve reflexão sobre os movimentos artísticos e musicais de forte apelo popular no Brasil.




Você gosta de Funk? Você gosta de música Brega? Você gosta de Rock? Você gosta de Bolero? Você gosta de Axé? Você gosta de técno-melody? Você gosta de Samba? Você gosta de quê? Você tem fome de quê? O que você pensa a respeito dos estilos musicais e ritmos populares que tem origem popular e estão impregnados na cultura de massa no Brasil?

Será que a sua, a minha, a nossa opinião está apoiada em uma visão crítica de nossa sociedade ou simplesmente reproduz máximas que fundamentam-se em uma visão e em uma postura preconceituosa que  distingue o que é bom do que é ruim por aquilo que é previamente estabelecido por alguém como de bom-gosto ou de mau gosto. Será que quando você faz suas escolhas musicais você não está apenas se deixando levar por suas memórias afetivas e querendo se fechar nelas, sem se permitir encontrar novas coisas e desfrutar delas. Será que você não está se fechando em um círculo vicioso de emoções, alegrias, tristezas e desilusões que envolvem sentimentos e sensações que são até ricos, mas também limitantes. A música não seria uma válvula de escape para a pressão do dia-a-dia, uma expressão concreta de uma necessidade que todos temos de sublimar o nosso cotidiano. Não é através da música que nos libertamos de nossas dores, tristezas e melancolias e finalmente encontramos um caminho para a alegria e para a superação daquilo que ainda não realizamos?

Quando os jovens da classe média carioca em plena Zona Sul da cidade inventaram a Bossa Nova não era isso que eles queriam expressar: seus sentimentos, desejos, amores e realizações. No entanto, será que este estilo musical internacionalmente consagrado que é a Bossa Nova e que é tida e havida pela elite intelectual e econômica brasileira como uma música de qualidade e representativa de nossa cultura sempre foi vista desta maneira?  Para que serve a música? Por que os seres humanos em todas as culturas conhecidas utilizam a música em seus rituais religiosos, festejos e eventos onde as pessoas se reúnem para se divertir e comemorar o ciclo da vida, uma data especial, o final de um ciclo. A música reproduz, condiciona e determina o ritmo da pulsação da vida, do batimento cardíaco, da nossa respiração; ela nos ajuda a repousar seja depois da exaustão do dia-a-dia, com ela o cansaço desaparece, o pensamento flui e a mente se libera dos problemas acumulados. Depois da música e da consequente execução da dança que ela determina o corpo esta mais leve, pronto para o repouso ou para o reinicio de um novo ciclo. Essa dança pode ser forte sensual, pulsante, leve ou suave como uma pluma ao vento - dois pra lá, dois pra cá! Pode até se dançar sem se levantar de um cadeira (que digam os cadeirantes como eu), sem sair do lugar, sem mexer o corpo, só com os olhos, com o pensamento a flutuar sobre uma bela paisagem já vivida ou simplesmente imaginada. Afinal, a música popular brasileira já decreta há algum tempo: quem não gosta de samba, bom sujeito não é! É ruim da cabeça, ou doente do pé?

Voltando a falar de estilos e ritmos musicais populares, muitos afirmam, sem medo de errar que o funk e outros estilos musicais populares no Brasil (técno-melody, rock, etc.) são representativos da “alienação” cultural de nossa sociedade; uma espécie de resultado da “invasão cultural” estrangeira que fomos submetidos nos últimos anos e que modificou nossos hábitos e costumes, “destruindo” nossa identidade cultural. Será? Será que é possível em manter uma identidade cultural única qualquer lugar, em qualquer país, isolada de interferências externas ou estrangeiras? Afinal, de onde vieram os ritmos e estilos musicais que hoje, no século 21, são tidos como genuinamente brasileiros? Será que o samba ou a chamada bossa nova são ritmos ou estilos de musica realmente originais do Brasil? O que tem de raiz africana ou europeia no “nosso” samba? O que tem de jazz e rhythm and blues na bossa nova? Será que um país, uma região ou um lugar em qualquer pode e deve se manter alheio e resistente a qualquer influência externa?

Algumas pessoas criticam os ritmos populares pela qualidade questionável das letras dessas músicas, quase sempre tidas como vulgares e pobres poeticamente falando, sendo, muitas vezes consideradas responsáveis pela banalização e vulgarização da mulher. Esses críticos acreditam que essas canções corroem os valores morais de nossa sociedade. Questiona-se também o fato das letras destas músicas utilizarem uma linguagem vulgar, sendo marcadas por erros gramaticais. Esquecem-se, estes críticos que seria impossível às camadas populares se expressarem, utilizando uma linguagem gramaticalmente tida como correta para falar dos seus dramas, amores e desafios cotidianos, se a formação escolar deles é marcada por uma educação formal de qualidade duvidosa?

Quanto a representação da mulher nestas letras e sua métrica poética, de fato elas seriam muito diferentes se comparássemos a letra de um funk com a letra de uma famosas canção de Bossa Nova?  Vejamos: a letra da música “Ela é Top” de Leo Rodrigues diz o seguinte: “Deixa ela é passar, não olha nem mexe... Rá! Ela é terrível! Ela não anda, ela desfila. Ela é top, capa de revista. É a mais-mais, ela arrasa no look, tira foto no espelho pra postar no Facebook...”. A canção internacionalmente conhecida de Tom Jobim, “Garota de Ipanema” descreve a mulher assim: “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça é ela menina que vem e que passa, no doce balanço a caminho do mar”.

Reflita: será que o conteúdo, a métrica poética e a forma de expressar a admiração e o desejo pela mulher nestas duas canções foi muito diferente? Ou será que ouvimos de forma diferente por causa do nosso preconceito que está tão impregnado em cada um de nós que não percebemos o verdadeiro conteúdo das coisas? Ou , será que foi a praia que mudou de lugar?

Se ligue, antes de criticar um estilo musical ou ritmo popular, pare pra pensar e refletir de onde vem sua crítica, em que ela está apoiada. Há alguns anos, no início do século 20, segundo diversos historiadores, as rodas de samba no Rio de Janeiro eram tão proibidas quanto os bailes funks o são hoje em dia.
Por outro lado, se é verdade que o funk é resultado de uma influência musical que veio de fora do Brasil, como uma extensão da expressão cultural e artística dos EUA, também é verdade que o nosso samba e a bossa nova são resultantes de um cadeirão cultural que se formou nas cidades brasileiras. O samba no início do século 20 e a bossa nova nos anos 50.

O samba se constituiu enquanto expressão artística, cultural e musical especialmente no Rio de Janeiro e Salvador, quando os negros descendentes de escravos que migraram do campo para as cidades resgataram os instrumentos musicais e seus cantos, lamentos e batuques religiosos e mesclaram tudo isso com instrumentos e ritmos oriundos da Europa – assim foi criado o samba.

É sabido que o samba nasceu e se desenvolveu no Rio de Janeiro, e sua origem, está ligada a dança que era acompanhada por pequenas frases melódicas e refrãos de criação anônima; sua origem está fortemente ligado à presença dos negros que migraram da Bahia, na segunda metade do século XIX, e se instalaram nos bairros cariocas da Saúde, da Gamboa e nos arredores da Praça Onze. Portanto, não podemos esquecer que o samba é um gênero musical que teve origem numa dança popular de origem africana presente nos bairros periféricos do Rio de Janeiro.

O ritmo a dança que era praticada pelos ex-escravos e seus descendentes acabou por incorporar outros estilos musicais que eram tocados nos bailes da cidade e que tinham origem diversa, inclusive estrangeira, como a polca, o maxixe, o lundu, o xote, entre outros. Por que então criticar o funk por conta de sua origem estrangeira, será que o funk tocado na periferia do Rio de Janeiro é igual ao funk norte-americano?

Sabemos que o funk é um gênero musical que se originou na segunda metade da década de 60, através da mistura de diversos estilos feita por músicos afro-americanos; ele foi criado a partir da mistura do soul music, do jazz e do rhythm and blues (R&B). Uma característica musical comum entre o funk e o samba é a batida grave que no samba vem dos instrumentos de percussão e no funk de um groove rítmico forte do baixo elétrico e da bateria no fundo. O funk carioca, em particular, começa a se formar nos anos 70, sendo também influenciado pelos estilos musicais oriundos de Miami-EUA (Miami bass e o freestyle).

Gente! Vamos parar pra pensar, num contexto de cultura globalizada em que vivemos o que é daqui e o que é de lá? Como podemos dizer o que é genuinamente nosso e o que é simplesmente estrangeiro? Os músicos da bossa nova também não foram influenciados pelo blues e pelo Jazz norte-americano? Por que será que Frank Sinatra se sentiu tão à vontade em cantar “Girl from Ipanema” ao lado de Tom Jobim no Canning Hall.

É preciso ter cuidado com o preconceito, se não você corre o risco de ficar parecido com o seu avô dizendo pra sua mãe que esta ou aquela música que ela está ouvindo é feia porque é estranha ou muito barulhenta, falta isso ou aquilo, ou a letra é ruim porque é muito simples, ou pior ainda; essa música não é boa porque é de pobre, preto e favelado... Olhe para o seu passado e veja se lá no meio dele não existe um pobre, preto ou favelado que foi discriminado por ser diferente ou por ter tido a coragem de fazer, cantar ou dizer algo que ninguém faria, cantaria ou diria. O pior é a critica sobre o jeito de dançar tido como vulgar porque mexe com a pélvis, com o glúteo (pra quem não está entendendo quadril e bunda), como se fosse possível dançar sem mexer essas partes do corpo. Na realidade, há um tremendo receio e pavor em mexer com alguma coisa tão próxima do sexo; que, aliás, continua sendo um grande tabu em nossa sociedade. Infelizmente, uma grande quantidade de pessoas continua achando que o melhor caminho sobre este assunto é a repressão, isto porque é difícil lidar com o próprio desejo, com o medo da rejeição do seu desejo, com o medo de fazer aquilo que realmente gostaria de fazer, mas isto é pauta para outra postagem.

Por enquanto eu fico com essa bela poesia: “Eu só quero é ser feliz! Andar, tranquilamente, na favela onde eu nasci, é! E poder me orgulhar, e ter a consciência que o pobre tem seu lugar...”. O lugar é o que todos nós queremos ninguém vive sem um lugar; deve ser por isso que gosto tanto dessa canção, pois o lugar é a categoria básica de toda e qualquer análise geográfica, não existiria geografia se não houvesse lugar. A minha geografia é o meu lugar e o hino dele são as músicas que tocam ali. 

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