Minha reflexão pessoal sobre o
drama dos jovens universitários de Santa Maria (RS)
e seus familiares
Prof. Luiz Pacheco
Todos os brasileiros ficaram,
neste último domingo (27/01), estarrecidos com o fato ocorrido na cidade de Santa Maria
(RS), quando dezenas pessoas, em sua maioria jovens estudantes
universitários, perderam sua vida devido a negligência de alguns e a falta de
cuidado com a vida humana.
Por tudo que eu já vi e li sobre
o assunto e também pela minha parca vivência em ambientes noturnos aqui em
Belém, eu tenho certeza de que esta boate do Rio Grande do Sul não possuía saída
de emergência, extintores suficientes e funcionando, captadores de fumaça e outros
equipamentos de segurança. Além disso, fica evidente a falta de treinamento dos
seguranças que atuam nesses espaços para lidar com esse tipo de situação. O
problema é que este não me parece um caso isolado, eu acredito que a sociedade precisa
se posicionar e deixar de frequentar locais que não ofereçam segurança,
conforto, acessibilidade e garantia de bem estar para quem deseja ir a um local
para se divertir comer, brincar, dançar, etc. A sociedade brasileira precisa
aumentar o seu padrão de exigência e cada indivíduo enquanto cidadão e
consumidor tem o direito de cobrar qualidade de serviço nos locais que
frequenta.
No caso de Santa Maria, temos que, infelizmente, considerar o problema da imprudência da juventude que sempre acha
que nada de mal vai lhe acontecer. Infelizmente somente o tempo é que nos
ensina a refletir e analisar melhor os ambientes que frequentamos e as situações que nos colocamos, considerando
o nível de segurança desses ambientes e até mesmo a qualidade do serviço que
eles prestam.
Por essa razão, penso que para
prevenir e evitar este tipo lamentável de ocorrência é que devemos cobrar do
poder público uma ação reguladora, fiscalizadora e punitiva em relação à
realização de eventos e shows em bares, boates, danceterias, clubes, logradouros
públicos, etc. Não podemos nos omitir diante de atitudes irresponsáveis como a
dos empresários, donos do local onde foi realizado o show, e a atitude dos produtores
deste show que não planejaram adequadamente o evento. Aliás, normalmente quem produz esse
tipo de evento não se preocupa com a infraestrutura para a sua realização,
preocupa-se apenas com o aspecto mercadológico deixando o bem estar e a segurança do cidadão/consumidor, que pagou para assistir o espetáculo, em segundo plano; o que dizer,
então a respeito da preocupação que eles deveriam ter com a população que, de
alguma maneira, poderia ter sido atingida pelo evento? Já imaginou se o incêndio tivesse se
propagado e atingido outros imóveis daquela rua?
Entendo, ainda, que é necessário
haver maior esclarecimento e orientação à população em geral, além de se exigir
um treinamento básico dos funcionários destes estabelecimentos para situações
de emergência, podendo, inclusive se estabelecer a exigência da criação de uma
brigada de incêndio para realização de eventos de grande e médio porte.
O que é lamentável neste caso, de
acordo com o que foi veiculado pelas redes sociais e imprensa em geral, é que
os jovens que ali estavam pagaram para assistir um show e acabaram morrendo,
devido uma orientação dos empresários e produtores para ninguém sair do local sem pagar e é
óbvio que o local não oferecia as mínimas condições de segurança. Assim, neste
caso, não basta nos comovermos com o drama pessoal das famílias, é preciso
mudar a nossa forma de pensar e agir e cobrar das autoridades maior
fiscalização e controle na qualidade da prestação de serviços.
Quanto ao papel da mídia em
situações como esta, eu penso que há uma diferença fundamental entre informar a sociedade e "espetacularizar a tragédia". Esta diferença pode ser sentida através do enfoque que
é dado ao problema, através do discurso elaborado sobre o assunto e até do tipo de imagem
que é veiculada. Os programas que se prendem mais ao drama pessoal dos envolvidos
tendem a ser mais sentimentais e sensacionalistas, acabam deixando de lado a raiz do problema. Isto não quer dizer que não devamos usar o
sentimento, mas precisamos, a partir dessa comoção pessoal, nos posicionar e exigir uma mudança de atitude por
parte dos órgãos que fiscalizam e liberam o funcionamento desses espaços. No mínimo
devemos iniciar um amplo debate sobre este assunto. Neste caso, o papel da imprensa é informar a
sociedade, buscando o esclarecimento dos fatos e orientando as pessoas para uma
tomada de consciência e/ou uma mudança de atitude, ou seja, a mídia formal e as
redes sociais têm um papel educacional e político fundamental que está
relacionado à formação do cidadão. Para mim, não existe cidadania sem
informação!
Para concluir, eu afirmo que não
é possível se colocar pessoas em situação de risco e chamar isso de acidente. No
campo jurídico existe uma diferença básica entre ação dolosa e culposa, talvez,
neste caso, não haja uma culpabilidade clara, única e exclusiva, mas com
certeza houve uma ação dolosa à vida humana; isto não pode ser negligenciado
por ninguém, principalmente pelas autoridades constituídas que foram, e,
normalmente, têm sido omissas no seu papel de regular e fiscalizar o funcionamento
dos espaços públicos ou de uso coletivo. Afinal, além do pagamento ao serviço de
lazer que seria prestado pela produtora do evento e pelo empresário da boate, os pais daqueles
jovens e eles mesmos também pagam seus impostos.
Onde já se viu permitir o
funcionamento de uma casa noturna sem saída de emergência? Usar um sinalizador em um local cheio de pessoas e material inflamável e achar isso normal? Criar espaços de
consumo do lazer sem ventilação natural ou janelas que permitam se estabelecer essas ventilação e, até mesmo, acesso alternativo ao interior do estabelecimento? Oferecer um serviço e não
está capacitado para isto? Enfim, tudo isso é LAMENTÁVEL!

Pois é, pessoal! Vejam só, mais uma vez a injustiça está em curso em nosso país, dois integrantes da banda que se apresentava na boate Kiss em Santa Maria (RS) foram presos. Claro que eles foram responsáveis diretos pela iniciativa de acender o sinalizador que provocou o incêndio, mas se o fizeram foi porque alguém permitiu, deixando de lado os mínimos critérios de segurança. Entendo que a responsabilidade deste caso não deva ser individualizada e que seja necessário se ampliar essa perspectiva de análise da polícia, averiguando a responsabilidade e culpabilidade de quem permitiu ou autorizou a realização do show. Como fica a responsabilidade do poder público local e da iniciativa privada que permitiram a realização do evento sem a mínima infra-estrutura de segurança necessária? É necessário apurar as responsabilidades e punir quem realmente é culpado por este lamentável crime.
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